Sabe aquele tipo de história que vale a pena ser contada milhões de vezes?
A história é de Larissa Mariano, uma estudante de jornalismo que tem paralisia cerebral. Ela está escrevendo um livro e sua história é inspiração pra muita gente.
"É difícil falar sobre mim. Ao mesmo tempo que sei toda a minha história, de mil ângulos possíveis, sempre me descubro diferente em cada momento da vida. Primeiro, descobri a importância de viver, quando nasci, no dia 30 de novembro de 1995, com cinco meses e meio de gestação, pesando 810g, medindo 33 cm e gêmea de uma menina, Samantha.
Descobri a perda quando Samantha faleceu, com apenas 23 dias de vida. Eu era a mais fraca, aquela que tinha menos chances de vencer, era a menina que passou por sete paradas cardiorrespiratórias e uma infecção hospitalar, mas também era a menina que, acima de tudo, sobreviveu.
Descobri o estímulo quando, aos oito meses, fui diagnosticada com paralisia cerebral e num grau muito forte, que me deixou com o cérebro de uma criança em estado vegetativo. Mas a fisioterapia começou, o apoio da família se fortaleceu ainda mais e fé foi a principal aliada em todo esse processo. Acreditar era o verbo mais fundamental que conhecíamos.
Descobri o choro de alegria quando comecei nos primeiros pequenos sucessos. Pegar objetos, sentar, engatinhar e fazer os movimentos mais simples com as mãos (como pinça com os dedos) eram grandes vitórias que ninguém esperava, mas sempre lutava para ver acontecer. Apesar de prematura, nada havia de prematuridade nos meus movimentos: nesses, eu era sempre um pouco mais tardia.
Descobri a música como reabilitação e fiz das minhas notas ao piano música para embalar minha rotina de acordar cedo e lutar para viver melhor, para enfrentar os meus próprios limites e tentar sempre fazer diferente, tentar ir além. O que eu buscava não era além do que eu podia, mas era o que eu ia lutar para, aos poucos, tornar uma conquista nova.
Descobri ríspidos nãos quando procurei escolas e vi minha mãe sair chorando de muitas delas, simplesmente porque não aceitavam ou alegavam não ter estrutura suficiente para uma criança com deficiência. A única estrutura que eu precisava era um sim, uma disposição e um acolhimento. Encontrei em um colégio que me amparou em tudo o que eu precisasse, em amigos e professores que nunca mediram esforços pra me ajudar e me incluir em tudo. Até mesmo nas aulas de educação física, dança e artes, onde todo mundo precisava ajudar e se adaptar a esse meu mundo.
Descobri as palavras quando precisei me expressar em uma lição de escola e compus minha primeira poesia, Criança. Tinha na época oito anos e tomei muito gosto por aquilo, tanto que não parei mais. Participei de concursos e não ganhei nenhum, mas fui convidada à rodas de poesia. Fiz textos, poesias e hoje reportagens, que tecem histórias coloridas de personagens que sempre marcam muito a minha própria vida.
Descobri o jornalismo, a paixão que eu tinha sempre a certeza de seguir. Descobri bastidores, descobri amores e teci sonhos quando conheci Isabella Fiorentino e Arlindo Grund, que me receberam numa gravação em setembro de 2009 para a entrega de um convite do Teleton. O contato permaneceu e nos guardamos no coração, nas mensagens trocadas sempre e na amizade que construímos. Dela, várias outras surgem na vida. A família Fiorentino e Hawilla de Isabella, a disposição dela e de Arlindo para me ajudar em tudo, para estarem sempre comigo, me acompanhando na vida pessoal e até ajudando a desabrochar profissionalmente, sempre.
Descobri moda interior, estilo de alma, coisas que não entendia. Descobri Paris e Londres numa viagem de formatura indescritível. Descobri e colecionei amizades que vêm de momentos difíceis e dolorosos (duas cirurgias grandes a que me submeti), mas que valeram a pena para a qualidade de vida que tenho hoje.
Descobri pessoas, que são a essência e a razão de tudo. Família, amigos, mãe, tios, avós, escolas, trabalho, faculdade, pautas, entrevistas, reportagens. Cada uma dessas partes me trouxe um pedaço que compõe meu coração. Cada uma das peças deste quebra-cabeça me ajuda a caminhar ao resultado mais lindo de todos: a vida que levo."
Larissa Mariano,






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